domingo, 9 de outubro de 2011

Sexo com animais: por que fingir que isso não existe?


Sexo com animais: por que fingir que isso não existe?

Quatro em cada dez brasileiros da zona rural já mantiveram relações sexuais com bichos, indica estudo inédito. Como a prática pode provocar câncer de pênis

por Cristiane Segatto

O câncer, felizmente, deixou de ser tabu. Raramente ouvimos alguém dizer que tem “aquela doença” ou uma “coisa ruim”. No caso do câncer de pênis, porém, a regra ainda é o silêncio. 

Quem teve não conta. Quem tem se desespera. Quem procura um posto de saúde raramente recebe orientação adequada. 

Apesar de raro (2,9 a 6,8 casos por 100 mil habitantes), ele costuma provocar mutilações terríveis. Quando células cancerosas atingem a virilha e o abdome, a amputação parcial ou total do pênis é quase inevitável.

Até hoje, a principal causa conhecida é a falta de higiene. Desleixo no banho ou a presença de fimose aumentam o risco de câncer. O acúmulo de secreções na glande ou em outras regiões do pênis causa uma inflamação crônica que pode desencadear o tumor.

Se falar sobre a doença pode pegar mal, imagine o que é falar sobre a prática de sexo com animais, um hábito que começa a ser relacionado ao câncer de pênis...Aberração? Mau gosto? Ousadia demais?

Como a ciência é feita de ousadia e a defesa da saúde precisa estar acima de julgamentos morais apressados, esta coluna estará sempre aberta aos assuntos proibidos.

Fazer sexo com animais é uma prática bem conhecida nas áreas rurais do Brasil. É uma questão cultural. O menino faz isso por curiosidade, por brincadeira ou para afirmar sua virilidade diante do grupo. O hábito pode ser passageiro ou durar várias décadas - mesmo depois que o homem já está casado ou não tem dificuldades de encontrar parceiras.

Na maior parte dos casos, porém, a prática fica restrita à juventude. Os homens mais velhos se lembram dela como uma travessura adolescente, uma brincadeira divertida e transgressora como matar passarinho com estilingue. Eles não têm, necessariamente, os distúrbios psiquiátricos conhecidos como zoofilia ou bestialismo.

Em 1979, o então sindicalista Lula mencionou a prática à revista Playboy. Aqui, um trecho: 
Playboy - Com que idade você teve sua primeira experiência sexual?

Lula - Com 16 anos.
Playboy - Foi com mulher ou com homem?
Lula (surpreso) - Com mulher, claro! Mas, naquele tempo, a sacanagem era muito maior do que hoje. Um moleque, naquele tempo, com 10, 12 anos, já tinha experiência sexual com animais… A gente fazia muito mais sacanagem do que a molecada faz hoje. O mundo era mais livre…

O sexo com animais é um costume milenar. Condenado pela Bíblia, representado em inúmeras obras de arte e citado pela literatura. Talvez a maioria das pessoas o considere abjeto, mas isso não impede que continue sendo praticado. Mais do que podemos imaginar.

O primeiro estudo completo sobre o assunto, um trabalho inédito no mundo, foi coordenado pelo urologista Stênio de Cássio Zequi, do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo.

O artigo científico foi aceito para publicação pelo The Journal of Sexual Medicine, o periódico mais respeitado nessa área. Deve ser divulgado nas próximas semanas.

Aqui você sabe antes.

O estudo reuniu 118 pacientes com câncer de pênis e 374 homens sadios entre 18 e 80 anos. Todos cresceram na zona rural. As entrevistas foram realizadas pessoalmente.

A pesquisa revelou que 31,6% dos homens sadios e 44,9% daqueles com câncer de pênis tiveram uma ou mais relações sexuais com animais a partir da adolescência.

Várias espécies foram citadas: éguas, mulas, vacas, cabras, ovelhas, porcas, cadelas etc. A maior parte (59%) dos homens declarou ter feito sexo com animais por um período de um a cinco anos. A frequência das relações variou:

Uma única vez na vida (14%)
Duas vezes ao mês (17%)
Uma vez por mês (15,2%)
Três vezes por semana (10%)
Duas vezes por semana (9,4%)
Uma vez por semana (10,5%)
Dia sim, dia não (5,3%)
Diariamente (4,1%)
Outras (14,5%)

“As taxas que encontramos nesse estudo são alarmantes, mas verdadeiras”, diz Zequi. “Essa prática ainda é comum nas áreas rurais, mesmo entre a população jovem”.

O trabalho reuniu pesquisadores de 16 centros que tratam câncer em 12 cidades brasileiras (São Paulo, Campinas, Barretos, Itapevi, Carapicuíba, Curitiba, Belo Horizonte, Teresina, São Luís, Natal, João Pessoa, Rio Branco).

“Na nossa amostra, vimos que transar com animais dobra o risco de desenvolver câncer de pênis”, diz Zequi. “Essa é uma novidade mundial, algo que ainda não havia sido demonstrado.”
Os pesquisadores tomaram o cuidado de isolar vários outros fatores que poderiam elevar o risco de câncer (múltiplas parceiras e doenças venéreas, por exemplo) e levá-los a uma conclusão errada.

De que forma as práticas sexuais com animais podem desencadear o câncer de pênis? Uma explicação possível:

A mucosa genital do animal é bastante queratinizada, mais dura que a humana. Pode provocar microtraumas na mucosa do homem e desencadear o câncer. Outra hipótese é a existência de elementos tóxicos na secreção animal ou de microorganismos capazes de infectar o ser humano.

“Por enquanto isso é especulação: o trabalho não nos permite afirmar se há um vírus envolvido nisso, nem se a prática pode causar danos às mulheres com quem esses homens se relacionam”, afirma Zequi.

O câncer de pênis é mais comum e devastador nas regiões mais pobres. O homem passa cinco, seis meses sem diagnóstico. Tem vergonha de falar sobre o assunto. Quando finalmente é examinado por um médico, recebe uma pomada e é mandado de volta para casa.

“Se estamos observando um comportamento cultural que causa danos à saúde das pessoas, as autoridades e os agentes de saúde precisam orientar a população”, diz Zequi. “É preciso dizer a esse público: lave o pênis, não tenha fimose, não transe com animal, use camisinha.”

Transar com animais não é um hábito exclusivo da pobreza. A internet ajudou a disseminar a prática também nos países desenvolvidos. Seja por curiosidade, seja por prazer, seja por doença psiquiátrica. Quebrar o tabu é a melhor forma de reduzir seus danos. Acredito nisso.

http://revistaepoca.globo.com/Saude-e-bem-estar/noticia/2011/10/sexo-com-animais-por-que-fingir-que-isso-nao-existe.html

sábado, 8 de outubro de 2011

- Entrevista - Iriny Lopes "Nenhuma mulher gosta de apanhar"

Iriny Lopes

"Nenhuma mulher gosta de apanhar"

Ministra rebate a máxima de Nelson Rodrigues, considera o País machista, diz que não é certo mulher falar com homem só se estiver de calcinha e sutiã e avisa: reagirá a outros comerciais como o de Gisele Bündchen

por Adriana Nicacio e Octávio Costa

Militante dos direitos civis e fundadora do PT no Espírito Santo, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes, enfrentou momentos difíceis em seus 58 anos de vida. Ao combater a corrupção e o crime organizado em seu Estado, foi ameaçada de morte e passou cinco anos sob proteção da Polícia Federal. Agora, no cargo de ministra de um governo encabeçado por uma mulher, Iriny está envolvida numa nova frente de batalha. Ela tornou-se alvo de uma saraivada de críticas e virou tema para humoristas ao mexer num vespeiro. A ministra pediu ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária que tire do ar o comercial “Hope ensina”, no qual a supermodelo Gisele Bündchen aparece como a esposa que se despe e fica apenas de calcinha e sutiã para diminuir a reação do marido diante de uma má notícia. Iriny considera a campanha “sexista” e preconceituosa: “Induz à compreensão equivocada de que as mulheres precisam do corpo como instrumento, em primeiro, segundo e terceiro lugar, para se impor.” Foi acusada, porém, de excesso moralista e falta de humor. A atitude da ministra foi entendida como um ato de censura, nos moldes da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, que, em nome do politicamente correto, tentou censurar Monteiro Lobato por considerá-lo racista. Seguindo essa linha, a obra de Nelson Rodrigues, considerado um machista radical, também poderia ser censurada? “Nelson Rodrigues já morreu”, respondeu a ministra. Convicta de que “o Brasil ainda é bastante machista”, Iriny diz em entrevista exclusiva à ISTOÉ que não tem o menor constrangimento em evitar a veiculação de peças que explorem a imagem da mulher. “Sempre vamos reagir ao exagero”, afirma.

Istoé – Por que a sra. decidiu censurar o comercial de lingerie, estrelado por Gisele Bündchen? 

Iriny Lopes - Não cabe a palavra censura nesse caso. Cabe responsabilidade social. Não temos uma visão moralista nem somos contrárias à publicidade de calcinha e sutiã. Todas nós usamos calcinha e sutiã e gostamos de peças bonitas e benfeitas. O problema é a indução de subalternidade. O comercial dá a entender que a mulher, para se proteger de alguma reação mais agressiva por parte do companheiro, precisa de uma imagem erotizada. Ela poderia conversar sobre aquele assunto vestida.

Istoé – Não é uma reação exagerada? A secretaria não está vendo problemas que não existem?  

Iriny Lopes - Na minha opinião, não. Dentro do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, nós temos um eixo muito importante que é a questão do uso da imagem. Temos também uma ouvidoria, para tomar procedimentos que considerem cabíveis. E há o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que não pertence ao governo. A publicidade tem regras e parâmetros. Na nossa opinião e na das pessoas que enviaram suas mensagens solicitando que a secretaria tomasse providências, há um conteúdo sexista na publicidade e cabe ao conselho analisar e tomar uma decisão. É legítimo, o Conar serve para isso.

Istoé – A sra. reclama da exposição da mulher de forma subalterna, mas a própria Gisele já protagonizou outra propaganda em que aparece limpando o chão, enquanto o marido a troca pela tevê por assinatura. Naquele caso, a secretaria não se manifestou. Por quê? 

Iriny Lopes - Também não consideramos aquela uma propaganda adequada à valorização da imagem da mulher. Mas a nossa ouvidoria não foi provocada.

Istoé – Sobram exemplos em que a mulher é usada como símbolo sexual. As propagandas de cerveja estão cheias dessas citações. A secretaria pretende tomar alguma medida? 

Iriny Lopes - Sempre vamos reagir ao exagero. Nós suspendemos o comercial de milhões da Devassa no Carnaval do ano passado. O caso da Hope não foi a primeira vez. Não foi nem será o último caso. 

Istoé – Quais os cuidados que as agências de publicidade devem tomar a partir de agora para não entrar na mira da secretaria? 

Iriny Lopes - A publicidade é do produto, não da mulher. A Hope poderia ter feito outro tipo de exibição durante o comercial da Gisele. Mostrado as peças que queria comercializar, por exemplo. O problema é o conteúdo de certo e errado, que induz à compreensão equivocada de que as mulheres precisam do corpo como instrumento, em primeiro, segundo e terceiro lugar, para se impor. E que a erotização pode reduzir uma reação mais violenta. 

Istoé – Nesse ritmo, as novelas vão acabar fora do ar...

Iriny Lopes - Acredito no diálogo. Nós entramos em contato com as redes de televisão para expressar tanto o nosso agrado quanto o desagrado. Nós tivemos novelas que trataram da violência praticada contra a mulher. Mostraram o problema e como enfrentá-lo. É uma contribuição. Na semana passada, liguei para a Ana Maria Braga para parabenizá-la por uma matéria sobre agressão, com base na novela. Também já fizemos contatos mais de uma vez solicitando alteração, dialogando no sentido de mudar o perfil de personagens que tinham características sexistas, sem contraponto na novela. Com o contraponto é o mundo real: há pessoas pacíficas e outras violentas. 

Istoé – E a sra. teve sucesso?

Iriny Lopes - Recentemente, me reuni com a Globo. Na novela “Fina Estampa”, que está no ar, a personagem de Dira Paes apanhava muito no começo. Agora, eles deram um tempo. Não queremos ocultar o fato, mas é preciso mostrar que a mulher pode reagir, que há políticas públicas, organismos públicos e grupos de ajuda que ela pode procurar. No aniversário de cinco anos da Lei Maria da Penha, nós recuperamos a personagem Raquel, vivida pela atriz Helena Ranaldi em “Mulheres Apaixonadas”, que passou em 2003. Ela apanhava do marido com uma raquete de tênis. Agora, numa publicidade toda voltada para a Lei Maria da Penha, Helena Ranaldi estimulou mulheres a buscar seus direitos. Nós temos um histórico de diálogo. 

Istoé – Mas há que se ter sensibilidade para separar a violência de peças publicitárias bem-humoradas, brincalhonas. Vinícius de Moraes, por exemplo, dizia: “As muito feias que me perdoem. Mas beleza é fundamental.” O que a sra. considera aceitável?
 
Iriny Lopes - Veja bem, o que pesa para nós não é se a modelo é bonita ou feia. O que não está certo é falar com um homem só se estiver de calcinha e sutiã. E se a mulher for baixinha? Gordinha? A propaganda estrelada pela Gisele é preconceituosa, pretende ser bem-humorada, mas estimula nas próprias mulheres a ideia de que precisa estar erotizada para superar, ganhar ou neutraliar uma reação negativa. Ali manifesta uma opinião de conteúdo a respeito de como as mulheres devem se portar. Essa é a essência do debate que gostaríamos de ter travado, mas não houve oportunidade.

Istoé – Alguns críticos mais exaltados disseram que a sra. teria agido por uma reação feminina de inveja à beleza da Gisele Bündchen.

Iriny Lopes - Eu acho isso uma baixaria. Ter opinião diferente faz parte do processo democrático. Censura é pensar que ninguém pode pensar ou agir diferente do que a gente pensa. O ataque à minha pessoa vem de pessoas despreparadas para o debate democrático.

Istoé – A sra. sempre foi uma militante feminista?

Iriny Lopes - Na verdade, sempre militei na área de direitos humanos. Sou uma mulher que passou por muitos desafios, porque a vida política e a vida pública impõem esses desafios. Sinto bem na pele o que tive de enfrentar para vencer, para dirigir um partido, para conquistar três mandatos de deputada federal. Como militante e dirigente de organizações de direitos humanos, quantas vezes tive que sair de casa para atender casos de mulheres que iriam ser esfaqueadas, mortas. E eu, de madrugada, tinha que bater na porta de juiz, pedir medida protetiva com urgência. Eu conheço de perto esses dramas. 

Istoé – No ano passado, a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial considerou Monteiro Lobato racista, a ponto de tentar barrá-lo nas escolas públicas. O que será de Nelson Rodrigues, se depender da Secretaria de Políticas para as Mulheres?  

Iriny Lopes - O debate sobre Nelson Rodrigues já está posto na sociedade. Se Nelson Rodrigues estava certo, se estava errado. Mas ao fim e ao cabo acabamos na mesmíssima situação: qualquer decisão sobre a publicidade com viés machista compete ao Conar. 

Istoé – Então a obra de Nelson Rodrigues será submetida ao Conar?

Iriny Lopes - Nelson Rodrigues já morreu. A obra dele está aí, feita e refeita. Com releitura, sem releitura. Mas nenhuma “mulher gosta de apanhar” (referência à célebre frase do escritor: “Toda mulher gosta de apanhar. Todas não, só as normais”). Nem hoje nem naquela época. Mas, naquela época, as mulheres não tinham voz suficiente para dizer: “Eu não gosto de apanhar.” Ninguém gosta de apanhar, e por que a mulher gostaria?  

Istoé – Essa polêmica toda em relação à propaganda é positiva?
 
Iriny Lopes - As mulheres se organizaram e conquistaram mais direitos. Já são maioria na população, embora ainda não estejamos no ponto de igualdade que achamos que as mulheres precisam estar. Não existiam tempos atrás organizações de mulheres ou feministas.

Istoé – Mas causa estranheza que a secretaria não tenha se manifestado com tanta veemência no caso das adolescentes trancafiadas nos presídios masculinos no Pará.
 
Iriny Lopes - Claro que nos manifestamos. Deslocamos pessoas para o Pará, conversamos e tratamos com o sistema de segurança e com a Justiça local nos dois casos. Essas ações não viraram notícia. As pessoas deveriam prestar um pouco mais de atenção em tudo o que a gente faz.

Istoé – Os dois assassinatos em Brasília foram executados por homens que não aceitaram o rompimento da relação. Nos últimos 20 anos, houve um avanço surpreendente das mulheres. O que acontece? O homem brasileiro não conseguiu acompanhar essa evolução?
 
Iriny Lopes - O Brasil é muito conservador e tem o hábito de colocar muita coisa embaixo do tapete. Não é um problema só do homem. É universal. Questões como essa deveriam ser discutidas nas escolas e pela imprensa, mas longe do calor do homicídio. Todos com ódio do homem e pena da mulher ou pensando: “Alguma coisa ela fez.” Como ocorre no caso de mulheres ao depor nas delegacias: “Minha filha, você não apanhou à toa, alguma coisa você fez.” E se fez? A mulher merece apanhar? Claro que não. Pelo momento bom de crescimento que o País está vivendo, pelo acesso ao conhecimento e à informação, a agilidade na mudança cultural poderia ser muito maior. Mas o Brasil ainda é bastante machista.
 
Istoé – Em quanto tempo a sra. calcula que a Secretaria de Políticas para as Mulheres deixará de existir? 

Iriny Lopes - Quando a delegacia da mulher virar peça de museu. 

Fonte: http://www.istoe.com.br

sábado, 1 de outubro de 2011

Informativo 01 out 2011

Opinião

Lei e Homofobia

por: Claudio Pozzatti (*)

É espantoso verificar que em pleno início do século XXI ainda se propaga a homofobia na sociedade, ou seja, aversão a homossexuais masculinos e femininos, sem precedentes e sem piedade. A falta de informação sobre a homossexualidade, cega os olhos das pessoas e até de muitos educadores que deveriam ser os primeiros a entender, assimilar e repassar, a seus educandos, as novas descobertas e valores de respeito e dignidade, os quais promovem a oportunidade de mudanças, de pensamentos e atitudes para o bem-estar de todos e todas.

O que é a homossexualidade? 

É uma constituição genética que se reflete no sistema hormonal durante o desenvolvimento embrionário, originando indivíduos que se sentem atraídos sexualmente pelos seus pares. Ser homossexual não é uma escolha, não é opção e nem sem-vergonhice. Ela é biológica e natural, como a heterossexualidade. Na verdade, é uma variante do desejo sexual, da mesma maneira que é variável a cor da pele, a cor e forma do cabelo, a altura das pessoas, etc.

Qual é a origem da homossexualidade?

Apesar de não existirem muitos trabalhos conclusivos, por falta de investimentos, já se sabe que a homossexualidade é genética. Ela é determinada por vários genes, alguns localizados no cromossomo sexual X e outros localizados em cromossomos não sexuais. Não se sabe quais são os fatores que desencadeiam a manifestação destes genes em algumas pessoas e em outras não, mas existem e estão nas células dos indivíduos.

Já é do conhecimento científico que a identidade sexual do indivíduo se forma por volta da 6ª a 8ª semana de gestação, quando o embrião que possuir o cromossomo Y, produzirá uma determinada dose do hormônio Testosterona (hormônio da libido e das características masculinas), que vai atuar na formação dos órgãos sexuais e na constituição sexual cerebral, principalmente na masculina.

Se a homossexualidade é natural, por que tanta homofobia?

O que neste momento de vida intrauterina se constituirá no cérebro ficará determinado para o resto da vida do indivíduo. As identidades sexuais que se formam neste período são: heterossexual, homossexual, bissexual ou transexual. Também, a formação destas identidades sexuais vai depender da eficiência ou não do cromossomo Y na produção do hormônio Testosterona.

Não existem cromossomos Y iguais e nem com a mesma capacidade de produção da Testosterona. Por isso a variação do desejo sexual depende da quantidade deste hormônio produzido na fase embrionária (6ª a 8ª semana de vida intrauterina). Assim, a diferenciação sexual existe e deve ser aceita por todos, porque se Deus (para quem acredita em Deus) criou esta variabilidade genética como tantas outras, que nos fazem diferentes de todos e de tudo, é porque ele quis assim e assim deve ser dignificada, amada e respeitada.

Se a homossexualidade é natural, por que tanta homofobia, por que tanta discriminação na sociedade, na religião, na escola e pior, na própria família?

Talvez porque seguimos cegamente ensinamentos preconceituosos, sem fundamentação científica, imaginados e perpetuados em tempos que não se tinha o aparato tecnológico e o conhecimento científico que temos hoje. Estes preconceitos criados desenvolvem problemas psicossexuais que afetam o desenvolvimento saudável dos indivíduos.
 
Um alerta a pais, educadores e cidadãos em geral: homofobia é crime.

Um povo doente, cheio de preconceitos, com uma sexualidade distorcida, serve ao poder de poucos sobre muitos. Sexo e poder sempre estiveram juntos e dominam o mundo nos últimos mil anos. Caminham juntos desde que se iniciou a campanha contra o sexo. Na teoria de que sexo só serve para reprodução,  promoveram-se relacionamentos privilegiados, em detrimentos de outros, discriminados.

Um alerta a pais, educadores e cidadãos em geral, “a homofobia é crime” e, no Brasil, não faltam leis para punir os preconceituosos, pelos danos morais e psicológicos causados. Vejam algumas delas:

• A Constituição Federal do Brasil de 1988 tem como um dos seus objetivos fundamentais, lutar contra todas as formas de preconceitos, dos Objetivos Fundamentais…
Art. 3º – Inciso IV – Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…

• O Conselho Federal de Medicina, a Organização Mundial de Saúde e as principais associações científicas brasileiras e internacionais deixaram de considerar a homossexualidade como desvio ou doença desde 1985 no Brasil e 1990 nos Estados Unidos.

• A resolução nº 01/99 do Conselho Federal de Psicologia proíbe o tratamento psicológico visando a “cura” da homossexualidade. Qualquer pessoa que tentar “curar” a homossexualidade deve ser denunciada. Este ato é um crime contra a natureza humana, ou seja, é uma tentativa, em vão, de castração da identidade sexual do indivíduo.

• O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA – é um instrumento legal que também defende a livre orientação sexual dos jovens. Veja seus seguintes artigos:
Art. 15 – A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas.
Art. 17 – O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a prevenção da imagem, da identidade e da autonomia.
Art. 18 – É dever de todos zelarem pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante ou vexatório.

Ninguém pediu para nascer assim

As leis existem, só precisam ser cumpridas pelas famílias, pelas escolas, pelas igrejas e pelas sociedades. As escolas têm o dever de incluir em seus “projetos político-pedagógicos de inclusão social” o respeito à diversidade sexual e o combate a toda forma de preconceito e discriminação. Caso contrário, não pode ser chamada de escola cidadã. E as famílias têm o dever de respeitar seus filhos, pois ninguém pediu para nascer assim. Afinal, ninguém tem culpa de algo natural e biológico.

Qualquer cidadão gay, lésbica, bissexual ou transexual que for humilhado com piadas, deboches, chacotas ou for discriminado em qualquer segmento da sociedade, principalmente em seu local de trabalho ou de estudo, pode procurar a justiça e exigir a reparação dos transtornos causados.

Só existem duas formas de aprender: por bem, com as informações corretas; ou por mal, na reparação da justiça.

Portanto, como diz Alan e Bárbara Pease (2000), “qualquer teoria que insista na uniformidade sexual é muito perigosa, porque exige o mesmo comportamento de pessoas com circuitos cerebrais completamente diferentes. Ao entender a origem dessas diferenças, fica mais fácil conviver, administrar, apreciar e até gostar das diferenças entre os sexos”.

Precisamos aprender a conviver com as diferenças sexuais, aceitá-las e respeitá-las. Este é o maior desafio deste século e um dever de todo cidadão. Respeitando as diferenças, poderemos viver num mundo mais harmonioso, humano e feliz.

(*) Claudio Pozzatti é orientador sexual, membro da SBRASH – Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Biólogo, professor na Escola Estadual Técnica José Cañellas e sócio do CPERS/Sindicato.

Fonte: http://bulevoador.haaan.com/2009/09/684/